Entrevista – Mutantes: mais uma virada radical na carreira

Em mais uma virada radical em sua carreira, a consagrada banda Os Mutantes, que surgiu em 1966, foi ícone tanto do tropicalismo quanto do incipiente rock brasileiro dos anos 60 e 70, e chegou a ser um dos destaques do rock progressivo brasileiro na segunda metade da década de 70, encerrou suas atividades em 1978 e retornou somente em 2006. Uma consagrada turnê trouxe de volta a dupla Arnaldo Baptista e Sergio Dias, além do baterista Dinho Leme e da vocalista Zélia Duncan, substituindo Rita Lee. O registro disso está no aclamado DVD Mutantes Ao Vivo, gravado no Barbican Theatre de Londres.

Agora em nova formação (sem Arnaldo e Zélia), reaparecem com músicas novas e altos planos. Para nos dar uma boa idéia do que está rolando, tivemos uma esclarecedora conversa com o guitarrista, vocalista e líder do grupo, Sergio Dias, que pode ser conferida abaixo (completam a formação atual: Dinho Leme (bateria), Bia Mendes (vocais), Fabio Recco (vocais), Vinicius Junqueira (baixo), Henrique Peters (teclado, flauta e vocais), Vitor Trida (teclado, guitarra, violão, flauta, cello e vocais) e Simone Soul (percussão)).

Sergio, vamos começar falando sobre a sua nova guitarra, totalmente customizada, a Kier, chamada de nova guitarra de ouro dos Mutantes. Por que você resolveu aposentar a velha Regulus?

Não foi por necessidade, a Regulus dá conta do recado, foi mais para preservá-la. Ela é uma relíquia, é algo que não existe outro, é insubstituível. Imagina se alguma coisa acontece com ela. Na verdade, aconteceu, no palco do Fillmore por exemplo. Eu entrei, ela caiu do meu colo no chão, e rachou a lateral dela. Lógico que foi uma coisa boba, eu consertei e tudo bem. Mas isso me alertou. E se um dia isso aqui desaparecer? Vou tocar com uma Strato? Não funciona. Então eu pensei em fazer um upgrade. Pensei em pedir ao Cláudio (César Dias Baptista), meu irmão, mas ele não pôde, pois está fazendo outras coisas. Então eu resolvi que ia fazer eu mesmo. Tinha um amigo nosso, o Lee Gardia, que é um luthier que estava sempre aqui, conversando a respeito. Eu desenhei a guitarra, disse tudo que eu queria, como que achava que devia ser, juntos fizemos todas a arquitetura, ângulo de braço, etc. Lógico que a Regulus influenciou em um monte de coisa nela.

E teve alguma coisa que tenha sido incluída nela que seja algo bem exclusivo, uma inovação, algo que você bolou bem específico para o seu jeito de tocar?

Sim, a alavanca por exemplo. É uma alavanca que não existia, eu desenhei ela de cabo a rabo. Os captadores… a parte elétrica é toda mexida, um lance totalmente diferente.

Em termos de sonoridade, ela ficou parecida com a Regulus?

Tem uma característica própria, ela é mais brilhante do que a Regulus, eu acho, e ela tem um timbre muito bonito.

Você mencionou os captadores. Que tipo de captação foi usada?

Foi algo feito pela Malagoli, seguindo os desenhos e a configuração que eu pedi. A parte elétrica foi desenvolvida por mim e pelo Ernesto Dias. A diferença básica é que hoje em dia você tem 30 anos de desenvolvimento eletrônico na frente. Antigamente, o Cláudio tinha que fazer as chaves na mão, não tinha chaves de 7 pólos disponíveis para você usar. Hoje em dia a gente está utilizando relés automotivos. E nós vamos alterar isso depois para chaveamento, ainda analógico, mas com flash por BIOS, etc.

A ideia é que seja uma guitarra mutante então?

Com certeza. Ela ainda está em projeto, em constante desenvolvimento. Essa é na realidade a segunda versão… O protótipo inicial, eu toquei com ela na Irlanda.

E hoje em dia você tem usado somente essa, ao vivo?

Não somente ao vivo, como em estúdio. Na Mutantes Depois só aparece ela, assim como em todas as músicas novas, do novo disco.

Pegando o gancho então da música nova… Mutantes Depois foi oferecida aos fãs para download gratuito, e é nitidamente uma homenagem aos próprios fãs, mas também ao legado dos Mutantes, analisando-se a letra, certo?

É muito grande a abrangência dessa letra. Se você for pensar na terceira parte dela: como é possível que o Universo caiba dentro de um grão de elétrons, nêutrons, positrons, você e eu, você é quem somos nós. Mostra como a gente pensa…

Certo, é algo lúdico, mas dá uns toques no público também, para que esse pare para pensar…

Também, também… O que é que você vai fazer, quando o Mutantes morrer? A peteca está com você.

E a ideia é que essa música esteja no disco novo?

Com certeza, mas não necessariamente esta versão.

Ela acabou funcionando como o antigo single, apresentado antes do álbum completo, né?

É, foi um lance mesmo de agradecimento. Não tem nem aquele lance de pague quanto você quiser. Essa é de graça mesmo.

E como tem sido a recepção do público em geral?

Maravilhosa. Você entra no Orkut e vê que tem sido fantástico. Por exemplo, pega o público que foi na Virada Cultural, agora em abril em São Paulo. Às 3 horas da manhã a gente entrou no palco e deviam ter umas 50.000-60.000 pessoas lá. E a Bia (Mendes, nova vocalista) foi também muito bem aceita, foi tudo muito bem.

Sim, ela agora está assumindo as partes vocais femininas principais, correto?

Isso. O Mutantes não tem um líder vocal. Mutantes sempre foi na maior parte do tempo 3 vozes.

Ou seja, ela, você e o Fábio Recco são agora essas 3 vozes principais dos Mutantes.

Tem o Vitor (Trida – teclados, flautas, violão, cello e vocais) também.

Mas quem vai fazer vocais solos nas músicas novas? Já existe essa definição?

Quem conseguir fazer o que for necessário, em cada música. Tem músicas novas que o Vitor está cantando. A gente ainda está vendo o que vai acontecer, estamos pegando partes, definindo as coisas conforme as qualidades de cada um.

Ou seja, a coisa vai se desenvolvendo no próprio estúdio mesmo…

Lógico. A pessoa tem que fazer a música ser dela. A parceria com o Tom Zé, por exemplo… A pessoa vai ter que tomar posse da música. Por exemplo, Balada do Louco quem escreveu foi o Arnaldo, mas sou eu que canto, é minha.

Em relação ao material novo, quem está compondo-o? Já sabemos das parcerias com gente de fora…

O maior colaborador no momento é o Tom Zé. Um **** barato, um sonho mesmo. Tudo o que eu pedi a Deus, e ele me mandou. No passado, naquela época eu era muito criança, eu não conseguia nem conversar com o Tom Zé. Hoje nós dois temos uma vivência, uma experiência enorme, e é genial poder trabalhar com um cara que tem uma visão, como a que ele tem do mundo, que eu nunca vi. No disco vai ter diversas parcerias minhas e dele. E tem outras parcerias que eu estou querendo ver, até o próprio pessoal da banda. O Vinícius (Junqueira, baixo) mesmo está lá agora no estúdio, trabalhando.

Numa música que pode entrar ou não, se eu bem entendi?

Depende do caminho que o disco leva, do que é o Mutantes novo, tem tudo isso. Por exemplo, tem um monte de músicas minhas que não têm nada a ver, eu não vou poder usar.

Sim, claro, usando o espírito crítico para fazer algo coerente… Em termos de estilo, você acha que ele vai na linha dos Mutantes anos 60, meio psicodélico, e é claro, incorporando alguma coisa de modernidade, ou vai ser algo bem diferente? A Mutantes Depois é bem numa linha característica da banda, acrescentando alguma coisa nova, mas bem no espírito do que o pessoal queria ouvir…

É, no momento eu não vou falar mais sobre o disco novo… Porque senão eu estou gastando bala à toa.

É, eu estou no meu papel de perguntar, e você está no seu de esconder os segredos…

Sobre o disco novo eu não vou falar nada. O negócio que eu vi mais legal sobre essa música, foi a antecipação que ela gerou. Eu não vou roubar isso das pessoas. Pra mim, foi a coisa mais gratificante de tudo. Ninguém sabia o que ia acontecer no dia 24 (de março), aí teve o show no Teatro Municipal de São Paulo, que era fechado, estreando a música, e só a partir de meia-noite é que ia ser possível baixar a música. Foi um negócio muito legal, que abriu muito os olhos da gente sobre qual será o próximo caminho.

Pegando um pouco a história do pessoal que saiu. O seu irmão, por exemplo… Como foi o lance com o Arnaldo? Vocês chegaram a começar a trabalhar juntos em material novo, já havia isso rolando antes da saída dele?

Havia muita dificuldade mesmo, não dá. Não ia rolar, infelizmente não.

Foi uma etapa necessária, os shows e a volta, mas não tinha mesmo como avançar além disso…

Foi um sonho, né… Eu adoraria. Mas não aconteceu… Da mesma forma com a Zélia (Duncan), eu adoraria ter trabalhado com ela (em estúdio), mas não consegui também.

Mas, de qualquer forma, a turnê foi muito legal, todo mundo adorou…

Tem sido, tem sido uma coisa maravilhosa, mesmo agora com a nova formação. No início eu fiquei com medo, quando a gente ia voltar sem a Zélia e o Arnaldo, essa coisa toda, lógico. Como é que eu faço agora? Você tem um monte de inseguranças. Mas foi tão legal na Virada, tão legal no Municipal, tão legal tudo que, bicho, eu tenho certeza de que nós estamos certos, entende?

E pra frente? É lógico que, quando sair o novo disco, vocês vão mesclar o material novo com o clássico, claro. Mas vocês já andaram recentemente incluindo algumas músicas antigas que vocês anteriormente não vinham tocando, como Dune Buggy e Uma Pessoa Só. Tem o plano de alternar as músicas antigas?

Tem, lógico, tem que tocar tudo o que a turma quer. É um **** barato, pra gente também, senão cansa, né? Dia 7 (de junho), por exemplo, vamos tocar em Belo Horizonte, o Tom Zé vai estar lá. A gente já vai tirar Qualquer Bobagem, pra tocar com ele. E 2001, lógico.

Falando um pouco agora do Liminha. Como é que foi essa volta que não aconteceu?

Ele se aproximou da gente, e eu abri as portas, lógico. Mas são vidas completamente diferentes, entende, e pontos de vista e maneiras de trabalhar que são impossíveis de serem conciliadas, depois de 30 e tantos anos.

A vida fez cada um seguir o seu caminho e as coisas não rolaram do jeito que rolavam antes…

Não, infelizmente não. O Liminha é um cara muito mais controlado, eu já sou um cara muito mais aventureiro, então não ia dar certo, infelizmente. O produtor que ele é, com o nome que ele tem, ele acredita piamente nas coisas que ele acredita e ele tem mais é que acreditar. Não necessariamente as formas de agir são as mesmas. Eu tentei, mas não deu certo.

E em relação à repercussão da banda lá fora hoje em dia? Como Os Mutantes são vistos no exterior, na sua visão? Como algo mais exótico, meio assim tupiniquim, ou como um ícone mesmo da música dos anos 60/70, contracultura e tal?

Olha, a gente está, como se diz… Nós estamos formando a opinião dos formadores de opinião. Quem começou a ouvir Mutantes, e a desenvolver isso lá fora, foram os formadores de opinião da música americana e inglesa. É uma coisa maravilhosa, nós estamos sendo colocados como, por exemplo, na primeira edição desse ano da Billboard Magazine, numa seção de apostas para este ano, o que eles chamam de long shot, coisas que eles esperam que aconteçam, ou não. Por exemplo, tem o disco novo do Led Zeppelin, o disco do Devo, o do Stevie Wonder com o Tony Bennett, e o dos Mutantes. O nosso público lá é tudo garoto, bicho, como está sendo aqui também. Num show às 3 horas da manhã você quase não encontra nego de 50 anos na plateia.

É, aqui no Brasil eu presenciei essa renovação do público de vocês. Então isso está rolando direto lá fora também?

Por exemplo, a gente foi tocar em Pitchfork, em Chicago. Tinha 18 mil a 20 mil pessoas, e lá não tem quase brasileiro. E a gente cantando em português… É algo meio louco, bicho.

Se tem uma língua ocidental que acabou sendo meio desprezada internacionalmente, foi o português, e a música acaba ajudando a corrigir um pouco isso…

É uma coisa meio restrita, claro, mas você vê um público americano fazendo o que a gente fez em relação aos Beatles, sem entender e fingindo que está cantando em inglês. Agora tem as coisas que eles estavam cantando lá e que era português, bicho… (risos)

Ou algo parecido…

Ou algo parecido, o que é genial, é mais legal ainda (risos).

E esse lance dos Mutantes terem influenciado ou estarem influenciando gente como Kurt Cobain, Sean Lennon, Beck, etc.? Isso é uma coisa que vai e volta, que acaba abrindo portas para vocês também…

Mas é lógico. E em termos mundiais. Veja só, outro dia eu dou de cara com uma declaração da Natalie Portman (NR: atriz israelense que estrelou Guerra nas Estrelas Episódios 1, 2 e 3). Perguntaram a ela o que ela andava ouvindo, e ela respondeu: Mutantes. Está muito forte, está extremamente forte lá fora… Bem, tem tido muito mais show nosso lá fora do que aqui.

Agora falando um pouco mais especificamente sobre você, Sergio. Onde você se sente mais confortável, como músico: em show, compondo ou gravando?

O que me importa é a interação humana, é o que eu mais gosto. Por exemplo, teve uma época em que eu fui fazer parte de uns shows da Second Life. Eu estava lá, tava tocando, tinha umas coisas sendo projetadas numa parede, parecia que eu estava lá sozinho e, bicho, daqui a pouco você se sente como se estivesse exatamente num palco, uma coisa muito louca.

É uma nova forma de interação entre músico e público… desde que você consiga tocar as pessoas, é válido.

É genial. Desde que haja realmente interação, aí você está vivendo. Você está a princípio sonhando, né? Por exemplo, composição. Você pode fazer uma coisa sozinho ou você pode fazer uma coisa junto das pessoas.

E você prefere compor sozinho ou em parcerias?

Junto com outras pessoas, eu gosto mais. É mais legal mesmo quando você faz alguma coisa, e deixa inacabado, e passa para outra pessoa acabar para você. Por exemplo, o Tom Zé, eu fiz uma letra e dei para ele. Imagina, eu dando uma letra pro Tom Zé (risos). Quando voltou a música pronta, eu quase caí de costas. Porque a surpresa do que vem, é uma coisa que você jamais sonhou, que aquilo que você conseguiu captar lá de cima, viesse aquele outro resto, entende? Eu só pensei na letra, uma coisa escrita, um jogo de palavras, e o que veio foi um escândalo, meus Deus do céu, uma das melhores músicas que ele já fez.

E está rolando direto o contrário também, de você colocar música em letras dele…

Lógico. O pau está comendo aqui…

Você tem uma previsão de quando aproximadamente vai sair o disco novo?

Não tenho ainda, a gente não está muito preocupada com isso e não vamos nos apressar. Eu penso em terminar até o final de julho, mas não tenho certeza se vai ser possível. Depende… A música é quem dita, né? Como nós somos autossuficientes em termos de estúdio, temos um em excelentes condições, nós não temos problemas com o tempo gasto lá, não temos pressa. Nós podemos experimentar até ficar bom.

E vai ser tudo mesmo gravado aí no seu próprio estúdio?

Sim, claro, tudo.

Certo. Em respeito ao futuro dos Mutantes, você tem alguma ideia mais sólida na sua cabeça, ou está simplesmente deixando as coisas acontecerem? Por exemplo, há algum tempo atrás se cogitou a volta dos Mutantes em sua versão mais progressiva. Será que haveria espaço para algo assim novamente no futuro, ou você acha que não?

Não sei, eu acho que não. Aquilo lá foi algo resultante de algo concreto. Apesar de ter tido os frutos maravilhosos que teve, aquilo foi uma época só. Eu acho que, a gente se reunir para tocar, aquela formação, algo do gênero, é pouco provável. Se bem que, há 2 anos atrás, se você me perguntasse se o Arnaldo iria estar comigo aqui tocando, essa coisa toda, eu teria te dito jamais. Eu jamais sonharia que isso pudesse acontecer… A última pessoa que vai tentar conduzir a vida dos Mutantes sou eu. A vida dos Mutantes sempre foi conduzida…

A própria filosofia da banda não passa por isso…

Foi uma das coisas que não deu certo em relação ao Liminha. Não dá para planejar tanto. O negócio agora é a gente viver. A gente está tendo a sorte de estar podendo viver tudo o que a gente viveu, só que hoje em dia, em vez de ter 15 ou 16 anos, tem 57. Então é um **** barato, porque você pode apreciar a cena, entende? E isso te dá uma visão muito mais profunda, é muito legal a gente estar podendo fazer isso.

Uma coisa que o pessoal sempre comenta… o pessoal da sua geração… tanto daqui quanto lá de fora, é sobre até que ponto as drogas teriam influenciado em toda a parte de composição, de criação.

Eu diria que foi mais importante para mim do ponto de vista pessoal do que artístico. Quando a gente começou a tomar ácido, a gente ficou muito fechado num mundo só. Muito fechado numa estrutura filosófica. Foi muito bom para nós pessoalmente, eu acredito. Péssimo pro Arnaldo. Eu não vejo nenhuma glória em tomar ácido, alguma coisa do gênero.

Mas a influência na criatividade, sob o seu ponto de vista, foi mais positiva ou negativa?

Eu acho que era mais natural sem, do que com. Eu acho que a gente foi mais criativa sem o ácido, do que com o ácido. Eu não tomo ácido há uns 28 anos, sei lá. Aquilo foi o movimento de uma época, o mundo inteiro estava vivendo aquilo. Foi uma descoberta, que foi extremamente positiva do ponto de vista de filosofia, de conhecimento, disso aí tudo, mas isso não significa que vá ser uma ferramenta de arte. Quando a gente fez, sei lá, Caminhante Noturno, Dom Quixote, Trem Fantasma, e muitas outras, a gente estava completamente careta. De onde veio toda aquela criatividade? Desde quando a gente ter que dar a nossa glória a uma pílula? (risos). Eu vou querer ter o prazer de poder dizer: não, fui eu que fiz isso aqui.

Falando ainda do passado, e sobre pílulas, eu não sei se você vai lembrar, mas eu queria te perguntar sobre algumas curiosidades sobre coisas antigas, vamos ver se você consegue se lembrar sobre quem fez o que, OK?

OK, vamos lá…

Por exemplo, você lembra quem tocou a flauta em Lady, Lady (disco Jardim Elétrico, 1971)?

Não me lembro bem, mas provavelmente algum músico de estúdio contratado. Outro exemplo, o violino em Não Vai. O solo foi escrito pelo (Rogério) Duprat, e não tinha músico aqui no Brasil que tocasse naquele lance meio country americano. Então é o spalla da Orquestra Sinfônica, na época, tocando aquela tralha. Mesmo hoje em dia, tem a Juliana Taíne, que está tocando a harpa em Fuga com a gente, está sendo o maior barato.

E você lembra quem cantou em Tiroleite (disco Hoje É O Primeiro Dia Do Resto Da Sua Vida, 1972)?

Fui eu mesmo.

E aquela parte meio barítono ou baixo de O A e o Z (1973) … Meu bem, ouça o meu rocknroll?

Aquela foi o Liminha.

Você já afirmou no passado que você teria gravado uma parte de bateria em alguma música, em que o Dinho não pôde tocar por algum motivo…

O Dinho estava com a clavícula quebrada, então eu toquei em Fuga no. 2 (disco Mutantes, 1969). O Arnaldo nessa época estava começando a tocar os teclados, passando a ser tecladista, então eu comecei a gravar os baixos também.

Bom Sergio, ficamos por aqui. Muito obrigado pelo seu tempo e paciência em responder a todas as perguntas, e boa sorte com o novo disco.

Valeu, eu é que agradeço!

http://www.myspace.com/mutantesoficial
http://www.myspace.com/sergiodiasoficial

Uma Educação Musical para O Terceiro Milênio?

A expectativa para o terceiro milênio é crescente. A vida está em compasso de espera. Hoje, fala-se de uma educação renovada, mas também de uma nova sociedade, de novas formas de ser e estar, de anseios, a todos os níveis, para uma vida que está lá longe – no terceiro milênio. E o presente? Que se tem feito dele? Estaríamos vivendo ou vegetando à espera do futuro?

Para o ser humano, de forma geral, e para os educadores, em particular, é muito importante nunca deixar de vivificar o presente. A expectativa obsessiva de futuro aponta para a atual insatisfação com o presente. De fato, nunca os valores humanos haviam mudado tanto e com tanta velocidade, e as ciências evoluído em tal escala que se tornou muito difícil para o homem comum acompanhar esse movimento. O século XX privilegiou o desenvolvimento tecnológico, as comunicações, o mercado; o mundo tornou-se globalizado. No plano social, a tendência à massificação é forte. Uma de suas conseqüências nefastas é a perda das identidades culturais locais. Cada vez mais, as sociedades procuraram aproximar-se dos padrões e valores dos países mais desenvolvidos, de tal maneira que para manter-se na originalidade de sua própria cultura e de suas próprias idéias, o homem moderno, muitas vezes, isola-se. De fato, é grande o isolamento daqueles que pretendem desenvolver-se criativamente sem deixar-se esmagar por uma forma qualquer de pensamento massificado. Por isso, a individualidade, como forma de defesa é uma das marcas desse fim de século. Por tudo isso também, encontra-se fragmentada a visão do homem: de um lado, corpos e mentes torturados que trabalham para sobreviver; por outro lado, almas que aspiram por formas mais humanizadas de vida.

Algumas percepções importantes vêm imediatamente à tona: apesar de todo o progresso alcançado pelas ciências e das novas conquistas – o espaço e novas tecnologias, em todos os campos, nunca antes imaginadas – a grande maioria das pessoas continua sem ter o básico para o seu sustento que lhes permita sentir-se realmente integradas a todo esse processo evolutivo característico do século que vivemos. Isso quer dizer que não houve uma evolução humana correspondente à evolução tecnológica. O que se percebe, é que vivemos em desequilíbrio, longe de nossas necessidades básicas, de nossos instintos naturais e daquilo que realmente nos tornaria felizes e equilibrados: a beleza, a simplicidade, a natureza, a força das relações humanas e o reencontro consigo mesmo.

Qual a função da música numa sociedade assim descrita?

Com certeza, colocar-se a serviço da sociedade, ajudando a recriar as dimensões humanas, estéticas, éticas, sociais, e – por que não dizer- as dimensões do sentir, do prazer, da alegria, da esperança das quais o ser humano nunca deveria ter se distanciado. Nesse sentido caminha o pensamento pedagógico que queremos comentar hoje, o da Pedagogia Musical Orff.

Carl Orff (Munique 1895 – 1982) foi o seu criador. Orff é conhecido do grande público pela autoria de Carmina Burana e pelo público de educadores musicais como o autor do Schulwerk (Música para escolas) que reúne suas obras pedagógicas infantis. Em 1924, inspirado nos movimentos que revolucionavam a estética da dança desde o início do século, com Diaghilev, e nos movimentos de renovação pedagógica propostos por pedagogos criativos – Decroly, Montessori, Freinet – funda juntamente com Dorothea Gunther uma escola de Dança, Movimento e Música. Mais tarde, juntam-se a eles Maja Lex, bailarina e musicista e Günhild Keetman, que viria a tornar-se sua principal colaboradora no desenvolvimento de sua obra pedagógica.

O objetivo de Orff era levar todos à música, não somente à sua aprendizagem, mas ao fazer musical direto. A idéia de Música elementar – um dos pilares de sua pedagogia – coloca a música como meio de expressão natural, vívido e simples que qualquer pessoa pode desenvolver em si. Trata-se de vida musical, onde o processo torna-se muito mais importante do que os resultados. Aqueles que querem aprender a como cantar afinado, procuram os cursos do Instituto Orff em Salzburg experimentam uma experiência inesquecível de viver e fazer música de forma intensa e coerente com nossa discussão: um tipo de fazer musical expressivo, acessível a todos, leigos ou não, que através de um conjunto de práticas de improvisação, expressão vocal, corporal e instrumental, vivências do imaginário, além de uma grande abertura para a música de todos os povos do mundo, levam o futuro professor a sentir de forma profunda os conteúdos da matéria que deseja transmitir, e levam o aluno a integrar em sua experiência todos aqueles aspectos da arte musical que normalmente lhe são apresentados de forma desorganizada, desconectada e tantas vezes inútil. Afinal, é sentindo que se criam as condições para um pensar mais elaborado. Neste sentido, a Pedagogia Musical Orff inaugurou uma nova era para a educação musical, onde o fazer, o sentir e o pensar podem encontrar seu equilíbrio numa forma completa de expressão. Uma pedagogia que sem dúvida personifica os novos paradigmas humanos para o século XXI.

Coração Envenenado

Considerada (e com razão!) uma das maiores bandas de rock da história, os Ramones encerraram sua carreira há exatos oito anos. Depois de mais de 2.200 shows, no dia 6 de agosto de 1996 o grupo que inventou o punk rock pisou pela última vez no palco, de onde saiu para entrar definitivamente para a galeria dos grandes do rock. Deixou também para trás uma história de brigas, drogas e desavenças de anos entre seus integrantes, contrastando com a imagem de uma família feliz que os Ramones vendiam para os fãs.

É até irônico pensar que uma banda como os Ramones, que quando foi formada em 1974 sem que nenhum membro entendesse muito além de nada sobre notas e acordes, conseguiu chegar lá no topo, criar um estilo revolucionário e atual até hoje como o punk e reunir uma legião de fãs ao redor do mundo a ponto de serem maiores do que os Beatles em países como a Argentina e, porque não arriscar, também no Brasil. Se bem que talvez eles nem se importassem com isso ou simplesmente não davam a mínima, depois de tudo o que passaram durante os seus 22 anos na estrada.

Para os Ramones valia a máxima de que “o simples é que é difícil”. Sem muito jeito para firulas, solos ou técnicas instrumentais, o negócio dos caras era tocar o maior número possível de músicas no menor tempo possível, de preferência uma emendada na outra, separadas apenas pelo “one – two – three – four” gritado pelo baixista Dee Dee Ramone (e depois por CJ Ramone) para marcar o início da próxima música enquanto os acordes finais da última canção ainda podiam ser ouvidos pelo público, nessa hora provavelmente hipnotizados pelo ataque sonoro da banda, que conseguia apresentar cerca de 30 músicas em menos de uma hora.

Em agosto de 1974 os Ramones – na época Joey, Tommy, Dee Dee e Johnny – pisaram pela primeira vez no C.B.G.B., clube onde o grupo se apresentou mais de 200 vezes e fez a fama da casa, que existe até hoje. Marcando estes 30 anos, a estreante Editora Barracuda acaba de lançar no Brasil o livro “Coração Envenenado: minha vida com os Ramones”. Trata-se da autobiografia do baixista Dee Dee Ramone, escrita em parceria com Verônica Kofman, cuja edição nacional conta com o prefácio assinado por André Barcinski, o maior entendedor no Brasil quando o assunto é “Ramones”.

Partindo da infância difícil na Alemanha, para onde o seu pai (um oficial do exército americano) e sua família mudaram após a 2ª Guerra Mundial, o livro de Dee Dee Ramone resgata a sua vida marginal na adolescência já em Nova York, o início da formação dos Ramones, as incansáveis turnês, as brigas, a sua saída da banda em 1989 e vai até aquele que deveria ter sido o último show dos Ramones em Buenos Aires, em 16 de março de 1996.

Sobre o fim da banda, ele escreveu: “simplesmente me alegro que tenha acabado, embora tenha sido divertido, em parte”. Na época do lançamento do livro na Inglaterra, em 1997, Dee Dee Ramone ainda trazia muitas mágoas em relação aos Ramones. Porém, nos últimos anos de sua vida algumas feridas começaram a ser curadas o que possibilitou inclusive participações como a de Marky, CJ e Joey em seus projetos solo.

Quando o baixista fundador dos Ramones morreu por overdose, em 6 de junho de 2002, ele estava com 50 anos e na ativa. Inclusive, estava de viagem marcada para o Rio Grande do Sul onde iria se apresentar ao lado do baterista Marky Ramone e do baixista CJ Ramone numa turnê com os gaúchos do Tequila Baby. A morte de Dee Dee Ramone pegou a todos de surpresa, inclusive seus amigos. Afinal, como ele deixou claro em “Coração Envenenado”, na metade dos anos 90 ele estava longe das drogas pesadas. Mas Dee Dee não resistiu e foi vencido pela heroína, da qual fazia uso desde a adolescência. Como Dee Dee afirmou no livro, uma história sobre os Ramones não poderia jamais ter um final feliz. Então, por que o final de sua vida seria?

“Coração Envenenado” está aí para ser devorado por fãs e amantes da boa música em geral. Escrito do mesmo modo que suas canções, de forma direta, simples, mas transbordando emoção e personalidade, o livro é a história de alguém que aos 12 anos de idade já se considerava um fracassado, mas que mesmo assim conseguiu viver a vida à sua maneira, protegido do mundo apenas pelas lentes do seu óculos escuros e por aquela cara de mau que só ele conseguia ter. Esse deixou saudades..

Coração Envenenado

Lançado originalmente na Inglaterra em 1997, Poison Heart. Surviving The Ramones, este acerto de contas com a própria vida, chega ao Brasil após a morte de seu autor, Dee Dee Ramone (Douglas Colvin, 1952-2002), ex-baixista e fundador dos Ramones.

Escrito em primeira pessoa, com a colaboração da jornalista Veronica Kofman, Coração Envenenado impressiona pela mistura entre o tom ingênuo e coloquial da narrativa e a pungência dos fatos narrados. Os demônios que atravessam o livro, aqueles que infernizaram a existência de seu autor e dos quais ele tenta se livrar ao escrever, nos falam também sobre a cena punk nova-iorquina, sobretudo nos anos 70, e a conquista da Inglaterra, o berço do movimento; e o fazem como se fôssemos, nós leitores, seus camaradas. Não há, portanto, um grande tratado sobre a história da música, do rock ou do punk neste livro. Não cabe aqui tal distanciamento.

O que há é alguém, uma personagem de fato histórica, falando sobre sua infância na Alemanha pós Segunda Guerra, sua família desestruturada, a iniciação tão prematura nas drogas, a adolescência no Queens, a formação da banda, seus amigos, namoradas e desafetos, seus vícios e as tentativas de se livrar deles, seus problemas de adaptação ao mundo.

Terminada a leitura deste relato tão honesto quanto subjetivo, temos um quadro completo na mente, como se tivéssemos, a partir de então, acesso a meandros históricos que não nos poderiam ter sido revelados de outra forma.

 

Como conseguir um empresário para divulgar sua banda

Dentro da experiência que tenho de duas décadas na música te passar algumas dicas gerais sobre diretrizes a se seguir:

1 – Tenha em mãos o melhor material promocional de sua banda quanto possível. Isso inclui um release completo com tudo de importante que vocês já fizeram, locais em que tocaram, pessoas com quem trabalharam, etc.. Além disso, boas fotos da banda (em estúdio e/ou ao vivo) e fundamentalmente um bom CD demo, gravado da melhor forma e com a melhor qualidade possível. Não precisa ter muitas músicas, duas ou três já bastam.

2 – Ter um bom site na internet, contendo todas as informações acima (release, fotos, músicas). Além disso, marcar presença na internet em todos os sites possíveis, como aqui mesmo no Webmusicos, e principalmente nos “grandes” como MySpace e Orkut.

3 – Se possível, agregar ao material promocional e ao site vídeos ao vivo, mas desde que tenham uma qualidade boa (qualquer material de baixa qualidade depõe mais contra que a favor, mesmo que vocês estejam tocando bem).

4 – Tentar agendar, mesmo sem empresário, o máximo de shows possíveis. Vocês mesmos devem fazer isso no começo, pois possivelmente só vão conseguir arrumar um bom empresário quando chamarem a atenção dele, o que só ocorre depois que já tiverem um bom público que acompanhe os shows de vocês. Lembre-se que ninguém trabalha de graça, e empresários no fim das contas querem mesmo é ganhar dinheiro – assim, só vão apostar o trabalho deles nas bandas que já estiverem mais “encaminhadas”, e para chegar nesse ponto tem que ralar sozinhos mesmo, a principio.

Posso estar esquecendo no momento um detalhe ou outro, mas no geral é começar com isso tudo que falei acima, que tudo o mais vai acontecendo naturalmente, fruto do trabalho da banda.
Boa sorte!

Consciência aplicada sobre o estudo musical

Nos últimos meses tive a oportunidade de estar em vários pontos do Brasil dando Workshops e trocando informações com muitos músicos, e o que me chamou a atenção foi a preocupação e dúvidas dos jovens estudantes a respeito de como estudar e adquirir a tão decantada técnica.

Primeiro é preciso perceber que tudo o que tocamos no instrumento envolve o conceito relacionado à palavra “técnica”. Em última análise ter boa técnica é tocar certo seja qual for o estilo ou grau de dificuldade que a música exigir. Sendo assim se faz necessário observar com muito cuidado e carinho tudo o que tocamos. Se tivermos uma postura de austeridade em relação ao nosso tocar e cada vez que pegarmos no instrumento nos tornarmos verdadeiramente responsáveis por cada nota emitida, iremos perceber o quanto erramos. Em realidade muitas vezes o fazemos por displicência. É comum pedir para um estudante tocar uma música, qualquer uma, algo que ele goste e toque por prazer, e podem acreditar que é muito raro ouvir uma música inteira, com começo, meio e fim, limpa e bem interpretada.

Fica fácil de perceber que o problema é de enfoque, ou seja, a falta de percepção do que é técnica, qual sua utilidade e como estudar corretamente.

Primeiro não devemos nos preocupar com o tempo de estudo diário, mas com o grau de concentração colocado sobre um material didaticamente organizado e a produtividade que isto pode gerar. Podemos passar o dia todo com o instrumento na mão e não aprendermos nada ficamos repetindo muitas coisas que não fazem sentido, sem organização e sem um objetivo definido. Neste caso dez horas por dia não valem muita coisa. Mas se cinco dias por semana estudarmos duas ou três horas concentradamente, com responsabilidade e organização, iremos conquistar um bom nível técnico em alguns anos de estudo, e de uma forma consistente. O que ganhamos desta forma fica conosco para sempre, tornando parte de uma capacidade anímica.

Na prática devemos separar assuntos que nos interessam dividindo nosso tempo de estudo em diferentes tópicos, desta forma podemos nos aperfeiçoar em mais de uma área simultaneamente. A repetição do estudo destes assuntos escolhidos é muito importante, mas procurando sempre refinar cada um deles e aumentar progressivamente sua dificuldade técnica. Depois de um tempo é necessário mudar de assunto, e mesmo com a consciência que cada assunto é inesgotável como fonte de estudo, é fundamental nos renovarmos procurando conhecer aquilo que ainda não sabemos. O maior problema que observo em jovens estudantes é a superficialidade com que estes encaram certos estudos. Ao tocar uma música devemos fazê-lo como se fosse a última e única de nossas vidas. Nossa obrigação é decorar melodia e harmonia, analizá-la, tocá-la com perfeição técnica incluindo a correta interpretação percebendo os pontos de dinâmica, vibratos, ralentandos, etc…A mesma idéia se aplica ao estudo de escalas e improvisação, ficar apenas subindo e descendo escalas não significa muita coisa, devemos encarar uma escala como uma grande chave para a realização da música e estudá-la em vários andamentos diferentes – inclusive muito lento – com diferentes divisões, saber seu padrão de intervalos, saber seu som de ouvido, e trabalhar sua aplicação sobre diferentes situações harmônicas.

A palavra chave é consciência, estudar consciente é ganhar tempo, é evoluir de verdade, de outra forma estaremos desperdiçando nosso precioso tempo.

Lembre-se que estudar não é ensaiar, tocar por diversão, gravar, e etc… Apesar de tudo isto fazer parte da nossa prática musical e ser o complemento natural das nossas horas de estudo temos que distinguir o tocar do estudar. O tocar em diversas situações adquirindo experiência é também um grande e necessário “tipo de estudo”, mas esta prática nunca irá substituir o estudo que fazemos sozinhos, interiorizados profundamente em construir uma base sólida que nos traga suficiência ao executar o ato de tocar.

Grande Abraço, Saúde e Paz.

A música que não vemos

Em um universo que aparenta ser apenas visual, a música até que ocupa uma posição de destaque. Já esteve melhor. Na Grécia Antiga figurava ao lado da Astronomia e da Matemática no chamado Trivium, uma espécie de tríade reunindo as disciplinas mais importantes para o ensino. Nos dias de hoje é tratada como mero entretenimento, e já foi absorvida pelo capitalismo globalizante. Talvez por ser invisível, é confundida com a poesia na música popular, sendo comum as pessoas se referirem a uma canção como “aquela música que diz assim…”

A música não diz, a música soa. Algumas manifestações rítmicas que muitos chamam de música servem também para suar. Fechadas em clubes noturnos, multidões oscilam ao sabor de apenas uma das quatro propriedades do som, que além do ritmo – mais propriamente definido como Duração – tem ainda em sua estrutura a Altura, a Intensidade e o Timbre. Em flagrante ignorância não apenas dessas propriedades, mas também contrariando a Física, filmes de ficção científica mostram sons de explosões no vácuo, onde o som não existe porque não se propaga.

O som é uma onda produzida por um agente e transmitida por um meio. Houve quem dissesse que este agente é deus, como no livro sagrado dos cristãos que noticia: “No princípio era o verbo…” E aqui temos a primeira confusão semântica entre a palavra e a música. Ou seriam a mesma coisa, sendo as duas manifestações do som? Há quem afirme que uma palavra lançada no ar tem poder maior do que aparenta. Há também quem se dedique a procurar na atmosfera do planeta palavras famosas proferidas por personalidades igualmente famosas.

O som mata. O deslocamento do ar é o responsável pela destruição da bomba. Muralhas de Jericó e outras efemérides históricas fazem indicações neste sentido. O fenômeno da onda sonora é facilmente percebido diante de uma caixa de som de porte médio. A música da onda também. As grandes gravadoras estão sempre fazendo ondas deste tipo. Quanto mais sofisticada a composição musical, mais possibilidade tem de ficar longe dos ouvidos médios. E a cada dia temos menos ouvidos treinados, mais ouvidos médios e bilhões de ouvidos básicos.

A falta de informação, educação e iniciação musical gera um imenso círculo vicioso, no qual cada vez mais músicos básicos compõem música básica para ouvidos básicos. É perfeitamente possível para qualquer pessoa perceber a Altura dos sons, ou seja, o quanto são mais graves ou agudos, da mesma forma que os olhos distinguem as cores. É curioso e trágico como as crianças cada vez menos estão sendo instruídas nesse sentido. E “veja” que elas, antes mesmo de distinguirem a imagem da mãe, a reconhecem pela freqüência do batimento cardíaco com o qual conviveram meses no útero.

A percepção sonora humana sempre apresenta curiosidades. Ouvindo uma gravação da peça Quadros Em Uma Exposição, do compositor russo Mussorgski, podemos notar em Promenade a presença de um pequeno trecho da música popular de origem francesa, Frère Jacques. Se Mussorgski nunca foi à França, e na época não existia rádio, como explicar a influência? Resposta: Na sua infância o compositor teve uma babá francesa. Era a Rússia tzarista, com a nobreza e seus criados a cantar para ninar os filhos abastados dos tzares, que herdaram a música nos ouvidos, sendo que Mussorgski foi um deles.

A música popular de nossos dias é composta com a teoria musical disponível no século 16. Bach e seus contemporâneos faziam coisa melhor do que muito do que se faz na MPB. Mas a música chamada de erudita, mais exatamente a música erudita de nossos dias atingiu um grau de sofisticação bastante perigoso. O grupo de rock progressivo Pink Floyd colocava uma freqüência de som subgrave – quase não audível pelos humanos – antes do início de seus shows. Ao começar a apresentação, desligava. Ufa! Qualquer coisa que fôsse tocada então seria inesquecível.

Quantos casais de namorados e amantes já não elegeram “aquela” canção inesquecível para ser o tema de seu romance? Quantos de nós não vamos às lágrimas com certas melodias que nos remetem a situações emocionais já vivenciadas? Acredita-se que boa parte dos casos de plágio envolvendo direitos autorais não sejam intencionais, tanto que a lei específica para tais situações estabeleceu uma “quantidade mínima de coincidência” para inocentar potenciais plagiadores.

Paradoxalmente, quando algum filho se decidi a seguir a profissão de músico os pais torcem o nariz. “Não dá dinheiro” costumam dizer de imediato. Não dá? Vamos a alguns números: apenas em 1998 a venda de CDs cresceu 65%, com um faturamento mundial da indústria fonográfica de 38,7 bilhões de dólares. Só no Brasil foram US$ 1,23 bilhão entre 1997 e 1999, movimentando 66 mil empregos diretos. Detalhe: o compositor costuma ver, no máximo, apenas 8% do preço final de um CD, e o intérprete – aquele que é “visto” cantando – leva até três vezes mais do que o autor da obra musical.

Desde meados do século passado a ciência se volta para a música. Além do desenvolvimento de novos instrumentos e equipamentos musicais, a eletrônica passou a não necessitar mais de instrumentistas. O tocador de instrumento passou a fazer parte de uma mão-de- obra obsoleta, circense e reciclável. Mas pelo menos o compositor continua sendo imprescindível, mesmo diante da máquina de fazer música. A psicologia abraçou a musicoterapia, a informática inventa sem parar novos timbres, novas sonoridades que não precisam sair de cordas, tubos ou peles.

Segundo o musicoterapeuta argentino Lívio Vinardi, a cada órgão do corpo humano está associado um acorde – conjunto de notas musicais – que por sua vez se relaciona com um segmento da coluna vertebral. Lívio relaciona ainda cada nota musical a uma cor: o DÓ é vermelho, o RÉ laranja, o MI amarelo, o FÁ é verde, o SOL é azul claro, o LÁ é azul escuro e o SI é violeta. Coincidência ou não, uma tribo africana cuja escala musical tem apenas 6 notas se utiliza da nota intermediária (SOL#) entre o SOL (azul claro) e o LÁ (azul escuro), no lugar de ambas, que são nuances da mesma cor: o azul.

Essa relação entre musicoterapia e cromoterapia – antes apenas teórica e objeto de controvérsia – foi comprovada cientificamente na Universidade de Brasília por Aloísio Arcella, compositor e pesquisador, na década de 90. O compositor de música erudita de vanguarda Rodolfo Caesar, hoje vivendo na Europa, já compunha baseado nessa relação, assim como Dvórak e outros eruditos nem tão contemporâneos. Mas cuidado: há charlatães usando iluminação colorida em seus shows e dizendo que são especialistas no assunto.

É preciso muito cuidado para se entender o invisível, mas a ausência da evidência não é a evidência da ausência. Este presente da natureza em forma de frequências, oscilações e variações guarda um grande mistério, que quanto mais se pesquisa mais surpreende. O status quo e a “globalização” já têm provas disso, e têm medo de que outros não tenham medo de usar essa arma para surpreendê-los. Afinal, a gente costuma ter medo do que não vemos. Mas o mundo continua governado pela soma dos medos existentes na face do planeta.