A música que não vemos

Em um universo que aparenta ser apenas visual, a música até que ocupa uma posição de destaque. Já esteve melhor. Na Grécia Antiga figurava ao lado da Astronomia e da Matemática no chamado Trivium, uma espécie de tríade reunindo as disciplinas mais importantes para o ensino. Nos dias de hoje é tratada como mero entretenimento, e já foi absorvida pelo capitalismo globalizante. Talvez por ser invisível, é confundida com a poesia na música popular, sendo comum as pessoas se referirem a uma canção como “aquela música que diz assim…”

A música não diz, a música soa. Algumas manifestações rítmicas que muitos chamam de música servem também para suar. Fechadas em clubes noturnos, multidões oscilam ao sabor de apenas uma das quatro propriedades do som, que além do ritmo – mais propriamente definido como Duração – tem ainda em sua estrutura a Altura, a Intensidade e o Timbre. Em flagrante ignorância não apenas dessas propriedades, mas também contrariando a Física, filmes de ficção científica mostram sons de explosões no vácuo, onde o som não existe porque não se propaga.

O som é uma onda produzida por um agente e transmitida por um meio. Houve quem dissesse que este agente é deus, como no livro sagrado dos cristãos que noticia: “No princípio era o verbo…” E aqui temos a primeira confusão semântica entre a palavra e a música. Ou seriam a mesma coisa, sendo as duas manifestações do som? Há quem afirme que uma palavra lançada no ar tem poder maior do que aparenta. Há também quem se dedique a procurar na atmosfera do planeta palavras famosas proferidas por personalidades igualmente famosas.

O som mata. O deslocamento do ar é o responsável pela destruição da bomba. Muralhas de Jericó e outras efemérides históricas fazem indicações neste sentido. O fenômeno da onda sonora é facilmente percebido diante de uma caixa de som de porte médio. A música da onda também. As grandes gravadoras estão sempre fazendo ondas deste tipo. Quanto mais sofisticada a composição musical, mais possibilidade tem de ficar longe dos ouvidos médios. E a cada dia temos menos ouvidos treinados, mais ouvidos médios e bilhões de ouvidos básicos.

A falta de informação, educação e iniciação musical gera um imenso círculo vicioso, no qual cada vez mais músicos básicos compõem música básica para ouvidos básicos. É perfeitamente possível para qualquer pessoa perceber a Altura dos sons, ou seja, o quanto são mais graves ou agudos, da mesma forma que os olhos distinguem as cores. É curioso e trágico como as crianças cada vez menos estão sendo instruídas nesse sentido. E “veja” que elas, antes mesmo de distinguirem a imagem da mãe, a reconhecem pela freqüência do batimento cardíaco com o qual conviveram meses no útero.

A percepção sonora humana sempre apresenta cuiosidades. Ouvindo uma gravação da peça Quadros Em Uma Exposição, do compositor russo Mussorgski, podemos notar em Promenade a presença de um pequeno trecho da música popular de origem francesa, Frère Jacques. Se Mussorgski nunca foi à França, e na época não existia rádio, como explicar a influência? Resposta: Na sua infância o compositor teve uma babá francesa. Era a Rússia tzarista, com a nobreza e seus criados a cantar para ninar os filhos abastados dos tzares, que herdaram a música nos ouvidos, sendo que Mussorgski foi um deles.

A música popular de nossos dias é composta com a teoria musical disponível no século 16. Bach e seus contemporâneos faziam coisa melhor do que muito do que se faz na MPB. Mas a música chamada de erudita, mais exatamente a música erudita de nossos dias atingiu um grau de sofisticação bastante perigoso. O grupo de rock progressivo Pink Floyd colocava uma freqüência de som subgrave – quase não audível pelos humanos – antes do início de seus shows. Ao começar a apresentação, desligava. Ufa! Qualquer coisa que fôsse tocada então seria inesquecível.

Quantos casais de namorados e amantes já não elegeram “aquela” canção inesquecível para ser o tema de seu romance? Quantos de nós não vamos às lágrimas com certas melodias que nos remetem a situações emocionais já vivenciadas? Acredita-se que boa parte dos casos de plágio envolvendo direitos autorais não sejam intencionais, tanto que a lei específica para tais situações estabeleceu uma “quantidade mínima de coincidência” para inocentar potenciais plagiadores.

Paradoxalmente, quando algum filho se decidi a seguir a profissão de músico os pais torcem o nariz. “Não dá dinheiro” costumam dizer de imediato. Não dá? Vamos a alguns números: apenas em 1998 a venda de CDs cresceu 65%, com um faturamento mundial da indústria fonográfica de 38,7 bilhões de dólares. Só no Brasil foram US$ 1,23 bilhão entre 1997 e 1999, movimentando 66 mil empregos diretos. Detalhe: o compositor costuma ver, no máximo, apenas 8% do preço final de um CD, e o intérprete – aquele que é “visto” cantando – leva até três vezes mais do que o autor da obra musical.

Desde meados do século passado a ciência se volta para a música. Além do desenvolvimento de novos instrumentos e equipamentos musicais, a eletrônica passou a não necessitar mais de instrumentistas. O tocador de instrumento passou a fazer parte de uma mão-de- obra obsoleta, circense e reciclável. Mas pelo menos o compositor continua sendo imprescindível, mesmo diante da máquina de fazer música. A psicologia abraçou a musicoterapia, a informática inventa sem parar novos timbres, novas sonoridades que não precisam sair de cordas, tubos ou peles.

Segundo o musicoterapeuta argentino Lívio Vinardi, a cada órgão do corpo humano está associado um acorde – conjunto de notas musicais – que por sua vez se relaciona com um segmento da coluna vertebral. Lívio relaciona ainda cada nota musical a uma cor: o DÓ é vermelho, o RÉ laranja, o MI amarelo, o FÁ é verde, o SOL é azul claro, o LÁ é azul escuro e o SI é violeta. Coincidência ou não, uma tribo africana cuja escala musical tem apenas 6 notas se utiliza da nota intermediária (SOL#) entre o SOL (azul claro) e o LÁ (azul escuro), no lugar de ambas, que são nuances da mesma cor: o azul.

Essa relação entre musicoterapia e cromoterapia – antes apenas teórica e objeto de controvérsia – foi comprovada cientificamente na Universidade de Brasília por Aloísio Arcella, compositor e pesquisador, na década de 90. O compositor de música erudita de vanguarda Rodolfo Caesar, hoje vivendo na Europa, já compunha baseado nessa relação, assim como Dvórak e outros eruditos nem tão contemporâneos. Mas cuidado: há charlatães usando iluminação colorida em seus shows e dizendo que são especialistas no assunto.

É preciso muito cuidado para se entender o invisível, mas a ausência da evidência não é a evidência da ausência. Este presente da natureza em forma de freqüências, oscilações e variações guarda um grande mistério, que quanto mais se pesquisa mais surpreende. O status quo e a “globalização” já têm provas disso, e têm medo de que outros não tenham medo de usar essa arma para surpreendê-los. Afinal, a gente costuma ter medo do que não vemos. Mas o mundo continua governado pela soma dos medos existentes na face do planeta.

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