Consciência aplicada sobre o estudo

Nos últimos meses tive a oportunidade de estar em vários pontos do Brasil dando Workshops e trocando informações com muitos músicos, e o que me chamou a atenção foi a preocupação e dúvidas dos jovens estudantes a respeito de como estudar e adquirir a tão decantada técnica.
Primeiro é preciso perceber que tudo o que tocamos no instrumento envolve o conceito relacionado à palavra “técnica”. Em última análise ter boa técnica é tocar certo seja qual for o estilo ou grau de dificuldade que a música exigir. Sendo assim se faz necessário observar com muito cuidado e carinho tudo o que tocamos. Se tivermos uma postura de austeridade em relação ao nosso tocar e cada vez que pegarmos no instrumento nos tornarmos verdadeiramente responsáveis por cada nota emitida, iremos perceber o quanto erramos. Em realidade muitas vezes o fazemos por displicência. É comum pedir para um estudante tocar uma música, qualquer uma, algo que ele goste e toque por prazer, e podem acreditar que é muito raro ouvir uma música inteira, com começo, meio e fim, limpa e bem interpretada.
Fica fácil de perceber que o problema é de enfoque, ou seja, a falta de percepção do que é técnica, qual sua utilidade e como estudar corretamente.
Primeiro não devemos nos preocupar com o tempo de estudo diário, mas com o grau de concentração colocado sobre um material didaticamente organizado e a produtividade que isto pode gerar. Podemos passar o dia todo com o instrumento na mão e não aprendermos nada ficamos repetindo muitas coisas que não fazem sentido, sem organização e sem um objetivo definido. Neste caso dez horas por dia não valem muita coisa. Mas se cinco dias por semana estudarmos duas ou três horas concentradamente, com responsabilidade e organização, iremos conquistar um bom nível técnico em alguns anos de estudo, e de uma forma consistente. O que ganhamos desta forma fica conosco para sempre, tornando parte de uma capacidade anímica.
Na prática devemos separar assuntos que nos interessam dividindo nosso tempo de estudo em diferentes tópicos, desta forma podemos nos aperfeiçoar em mais de uma área simultaneamente. A repetição do estudo destes assuntos escolhidos é muito importante, mas procurando sempre refinar cada um deles e aumentar progressivamente sua dificuldade técnica. Depois de um tempo é necessário mudar de assunto, e mesmo com a consciência que cada assunto é inesgotável como fonte de estudo, é fundamental nos renovarmos procurando conhecer aquilo que ainda não sabemos. O maior problema que observo em jovens estudantes é a superficialidade com que estes encaram certos estudos. Ao tocar uma música devemos fazê-lo como se fosse a última e única de nossas vidas. Nossa obrigação é decorar melodia e harmonia, analisa-la, tocá-la com perfeição técnica incluindo a correta interpretação percebendo os pontos de dinâmica, vibratos, ralentandos, etc…A mesma ideia se aplica ao estudo de escalas e improvisação, ficar apenas subindo e descendo escalas não significa muita coisa, devemos encarar uma escala como uma grande chave para a realização da música e estudá-la em vários andamentos diferentes – inclusive muito lento – com diferentes divisões, saber seu padrão de intervalos, saber seu som de ouvido, e trabalhar sua aplicação sobre diferentes situações harmônicas.
A palavra chave é consciência, estudar consciente é ganhar tempo, é evoluir de verdade, de outra forma estaremos desperdiçando nosso precioso tempo.
Lembre-se que estudar não é ensaiar, tocar por diversão, gravar, e etc… Apesar de tudo isto fazer parte da nossa prática musical e ser o complemento natural das nossas horas de estudo temos que distinguir o tocar do estudar. O tocar em diversas situações adquirindo experiência é também um grande e necessário “tipo de estudo”, mas esta prática nunca irá substituir o estudo que fazemos sozinhos, interiorizados profundamente em construir uma base sólida que nos traga suficiência ao executar o ato de tocar.
Grande Abraço, Saúde e Paz.

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