Uma Educação Musical para O Terceiro Milênio?

A expectativa para o terceiro milênio é crescente. A vida está em compasso de espera. Hoje, fala-se de uma educação renovada, mas também de uma nova sociedade, de novas formas de ser e estar, de anseios, a todos os níveis, para uma vida que está lá longe – no terceiro milênio. E o presente? Que se tem feito dele? Estaríamos vivendo ou vegetando à espera do futuro?

Para o ser humano, de forma geral, e para os educadores, em particular, é muito importante nunca deixar de vivificar o presente. A expectativa obsessiva de futuro aponta para a atual insatisfação com o presente. De fato, nunca os valores humanos haviam mudado tanto e com tanta velocidade, e as ciências evoluído em tal escala que se tornou muito difícil para o homem comum acompanhar esse movimento. O século XX privilegiou o desenvolvimento tecnológico, as comunicações, o mercado; o mundo tornou-se globalizado. No plano social, a tendência à massificação é forte. Uma de suas conseqüências nefastas é a perda das identidades culturais locais. Cada vez mais, as sociedades procuraram aproximar-se dos padrões e valores dos países mais desenvolvidos, de tal maneira que para manter-se na originalidade de sua própria cultura e de suas próprias idéias, o homem moderno, muitas vezes, isola-se. De fato, é grande o isolamento daqueles que pretendem desenvolver-se criativamente sem deixar-se esmagar por uma forma qualquer de pensamento massificado. Por isso, a individualidade, como forma de defesa é uma das marcas desse fim de século. Por tudo isso também, encontra-se fragmentada a visão do homem: de um lado, corpos e mentes torturados que trabalham para sobreviver; por outro lado, almas que aspiram por formas mais humanizadas de vida.

Algumas percepções importantes vêm imediatamente à tona: apesar de todo o progresso alcançado pelas ciências e das novas conquistas – o espaço e novas tecnologias, em todos os campos, nunca antes imaginadas – a grande maioria das pessoas continua sem ter o básico para o seu sustento que lhes permita sentir-se realmente integradas a todo esse processo evolutivo característico do século que vivemos. Isso quer dizer que não houve uma evolução humana correspondente à evolução tecnológica. O que se percebe, é que vivemos em desequilíbrio, longe de nossas necessidades básicas, de nossos instintos naturais e daquilo que realmente nos tornaria felizes e equilibrados: a beleza, a simplicidade, a natureza, a força das relações humanas e o reencontro consigo mesmo.

Qual a função da música numa sociedade assim descrita?

Com certeza, colocar-se a serviço da sociedade, ajudando a recriar as dimensões humanas, estéticas, éticas, sociais, e – por que não dizer- as dimensões do sentir, do prazer, da alegria, da esperança das quais o ser humano nunca deveria ter se distanciado. Nesse sentido caminha o pensamento pedagógico que queremos comentar hoje, o da Pedagogia Musical Orff.

Carl Orff (Munique 1895 – 1982) foi o seu criador. Orff é conhecido do grande público pela autoria de Carmina Burana e pelo público de educadores musicais como o autor do Schulwerk (Música para escolas) que reúne suas obras pedagógicas infantis. Em 1924, inspirado nos movimentos que revolucionavam a estética da dança desde o início do século, com Diaghilev, e nos movimentos de renovação pedagógica propostos por pedagogos criativos – Decroly, Montessori, Freinet – funda juntamente com Dorothea Gunther uma escola de Dança, Movimento e Música. Mais tarde, juntam-se a eles Maja Lex, bailarina e musicista e Günhild Keetman, que viria a tornar-se sua principal colaboradora no desenvolvimento de sua obra pedagógica.

O objetivo de Orff era levar todos à música, não somente à sua aprendizagem, mas ao fazer musical direto. A idéia de Música elementar – um dos pilares de sua pedagogia – coloca a música como meio de expressão natural, vívido e simples que qualquer pessoa pode desenvolver em si. Trata-se de vida musical, onde o processo torna-se muito mais importante do que os resultados. Aqueles que procuram que querem se especializar, que querem aprender como cantar afinado, os cursos do Instituto Orff em Salzburg experimentam uma experiência inesquecível de viver e fazer música de forma intensa e coerente com nossa discussão: um tipo de fazer musical expressivo, acessível a todos, leigos ou não, que através de um conjunto de práticas de improvisação, expressão vocal, corporal e instrumental, vivências do imaginário, além de uma grande abertura para a música de todos os povos do mundo, levam o futuro professor a sentir de forma profunda os conteúdos da matéria que deseja transmitir, e levam o aluno a integrar em sua experiência todos aqueles aspectos da arte musical que normalmente lhe são apresentados de forma desorganizada, desconectada e tantas vezes inútil. Afinal, é sentindo que se criam as condições para um pensar mais elaborado. Neste sentido, a Pedagogia Musical Orff inaugurou uma nova era para a educação musical, onde o fazer, o sentir e o pensar podem encontrar seu equilíbrio numa forma completa de expressão. Uma pedagogia que sem dúvida personifica os novos paradigmas humanos para o século XXI.

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